Ferramentas de IA ajudam a resolver problemas concretos da advocacia
Fonte: Migalhas quentes
Com o avanço da IA - inteligência artificial, novas ferramentas de tecnologia vêm
sendo usadas para estruturar e disseminar o conhecimento jurídico acumulado
ao longo dos anos. As aplicações também servem para captar novos clientes,
reduzir trabalho repetitivo e padronizar a qualidade de instrumentos jurídicos,
tarefas até então 100% executadas por advogados.
Escritório especializado em Direito do Trabalho, o Salem Advogados, já havia
desenvolvido anos atrás uma calculadora de verbas rescisórias do zero. A lógica
era direta: a percepção de que um problema real poderia ser transformado em
solução útil.
A dúvida envolvendo valores dos processos trabalhistas é recorrente entre quem
procura assessoria jurídica. A calculadora tornou-se um instrumento de captação
de clientes, facilitou a primeira conversa e ajudou o time a qualificar melhor os
casos antes de investir tempo neles.
A calculadora foi também o ponto de partida para o desenvolvimento de outra
aplicação de IA para resolver um problema recorrente: a dificuldade de recrutar
profissionais qualificados, sustentar engajamento ao longo do tempo e lidar com
a rotatividade, o que acaba gerando custos e perda de eficiência nos escritórios.
"A rotatividade e o treinamento de novos talentos em áreas com tarefas muito
manuais e repetitivas gerava atrasos, sobrecarga do time e diminuição de
qualidade", explica o sócio fundador Giancarlo Salem.
Também elaborada internamente pelo escritório, a nova ferramenta serve de
apoio na preparação para as audiências trabalhistas – etapa considerada
estratégica em ações judiciais e que tradicionalmente depende da experiência
individual de cada advogado.
A solução adotada se baseia na inteligência artificial treinada a partir do histórico
de audiências conduzidas pelos sócios do escritório ao longo dos anos. A
ferramenta organiza informações processuais e auxilia na estruturação de roteiros
e linhas de questionamento, conforme o contexto de cada ação.
Antes da implementação, a preparação das audiências variava conforme o tempo
disponível e a experiência de cada profissional. Com a automação de parte desse
fluxo, o escritório reduziu tarefas repetitivas e ampliou a consistência da
preparação técnica, transformando conhecimento acumulado em um processo
mais estruturado e replicável. "A IA não substitui o advogado; ela transforma
experiência em padrão. O que antes dependia da memória, experiência e
disponibilidade de um advogado sênior passou a virar um padrão replicável para
todo o time", ressalta Giancarlo.
A partir dessa experiência, outros pontos do fluxo foram atacados com o mesmo
método. A triagem de leads, que identifica quais casos merecem atenção inicial
do time comercial, também foi automatizada com base nas informações do
primeiro contato. E com os dados coletados durante a entrevista com o potencial
cliente, a inteligência artificial passou a gerar uma estimativa de probabilidade de
êxito e do valor dos honorários esperados. "Antes, o comercial podia priorizar
casos por urgência, simpatia do cliente ou ordem de chegada. Com IA, o time passa
a priorizar por chance de êxito e valor potencial".
Para Claudio Lensing, CEO da BT Créditos, o movimento indica uma mudança
gradual na lógica operacional da advocacia trabalhista. "A adoção de inteligência
artificial não parte de um projeto de inovação. Começa como tentativa de resolver
problemas concretos da advocacia", afirma.
Durante muito tempo, ressalta Lensing, a discussão sobre IA no setor jurídico
ficou concentrada em expectativas abstratas. "O que começamos a observar agora
são escritórios aplicando tecnologia para resolver problemas objetivos de operação,
escala, gestão e aplicação de conhecimento".
Fatores como alta rotatividade, excesso de tarefas repetitivas e necessidade de
ganho de produtividade ajudam a explicar o avanço dessas soluções dentro da
advocacia. "O diferencial não está apenas na ferramenta, mas na capacidade de
transformar experiência prática em processos estruturados", destaca.
Segundo ele, gerir pessoas está entre as três maiores dores dos sócios de
escritórios trabalhistas. "Isso ressoa diretamente com o que identificamos em uma
pesquisa qualitativa conduzida pela BT no fim do ano passado. As tarefas iniciais
do trabalho jurídico – repetitivas, manuais e pouco estimulantes – geram
desengajamento. O custo de contratar, treinar e perder profissionais é alto demais
para ser ignorado", conclui o CEO.